«1944» – reescrever a História<br>no palco da Eurovisão

Manuel Pires da Rocha

Um palco é um palco – há sempre alguém que se prende àquelas luzes. Mesmo sendo o palco da Eurovisão, o lugar televisivo em que o amor-amor-amor de plástico é apresentado em generosas doses, embrulhado em glamour, efeitos cénicos e música. De resto, no festival da Eurovisão o que menos importa é a música – para além do Waterloo dos Abba, da memória dos mais velhos, quem é que conseguirá assobiar uma canção vencedora do Eurofestival dos últimos, digamos, dez anos?

E há ainda as palavras, esse lastro que toda a canção carrega e que, nas «letras festivaleiras», quase não tem peso – qualquer «iú love mi, ai love iú» é mais do que bastante para a função, o resto há-de ficar por conta do cenário. Entre 1978 e 1998, as regras ainda ditavam que as canções fossem cantadas na língua nacional do concorrente. Mas, logo em 1999, a disposição foi alterada e o resultado é serem, muitas das canções concorrentes, cantadas parcial ou totalmente em inglês – um inglês básico que, assumindo-se moeda única dos idiomas, vem empobrecendo ainda mais a participação, já de si feita para ser pobre, dos países outro-falantes.

Política nem vê-la! O regulamento é claro quando determina que «não serão permitidos quaisquer gestos, letras ou discursos de natureza política». Por isso é que, em 2011, os portugueses «Homens da Luta» foram avisados da existência da regra, impeditiva da apresentação da Geórgia na edição de 2009. Os Homens da Luta lá foram apesar de tudo a passeio, talvez porque a caricatura da revolução nunca é um acto revolucionário, e a sensibilidade eurovisiva pode bem com palavras de ordem embalsamadas.

Em 2016 a regra «despolitizadora» vigorou ainda (como se não se soubesse que não há nada mais intrinsecamente político do que a proibição da política), mas havia uma razão maior para que não fosse aplicada à canção da Ucrânia. Depois de tantos anos a fazer de conta, neste ano de grande violência imperialista, a Eurovisão pôde, finalmente, usar os seus canais para se associar à ofensiva ideológica que se esforça, todos os dias, por reescrever a História.

Por encomenda ou mero acaso, a cantora ucraniana Jamala apresentou no palco do Festival a canção «1944», uma mistura de URSS, Crimeia, Ucrânia e tudo o que possa contribuir para sentar no banco dos réus um tempo histórico que foi o da derrota do nazi-fascismo e da vitória da democracia na Europa.

Em 1944, na Europa – no Mundo – lutava-se contra o nazi-fascismo, naquela que foi a mais violenta das guerras da História da Humanidade. Um ano antes, em 2 de Fevereiro de 1943, o Exército Soviético tinha selado em Stalingrad o início da derrota do imperialismo alemão, de que Hitler era fiel servidor. Em 1944, a Europa estava a um ano da libertação.

Pouco importará aos patrocinadores do Festival da Eurovisão que 1944 tenha sido o ano da deportação de tártaros da Crimeia. A História sabe que o imperialismo europeu nunca foi muito dado à preocupação com as tragédias dos humanos, dentro e fora do seu território. E se exemplos faltassem, teríamos o dos refugiados árabes sem refúgio, sobreviventes das guerras que os EUA e a UE levaram às suas casas e às suas vidas, agora reunidos nos campos de concentração que a União Europeia aluga na Turquia. Ou os povos da antiga Jugoslávia, vítimas de um xadrez «ocidental» diabólico, em que o sofrimento oscilou entre a morte e o comércio de órgãos humanos, patrocinado por conhecidos aliados do chamado ocidente.

Em 2016, o Tribunal Administrativo de Kiev decretou a ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia (PCU), na sequência do golpe de Estado de Fevereiro de 2014. Ao mesmo tempo iniciou-se uma campanha de reescrita da história, traduzida no branqueamento dos crimes das forças colaboracionistas com o ocupante nazi na II Guerra Mundial e a promoção de forças paramilitares de perfil neonazi.

Mas isso é em 2016. Para os patrocinadores da Eurovisão a tarefa é a da reinvenção dos dramas que, em 1944, envolveram tártaros da Crimeia, utilizando o estafado (o criminoso) processo da apresentação simplista de «factos» vindos de um tempo que foi o da sementeira da paz, paga com mais de 20 milhões das vidas soviéticas (também de tártaros) que Jamala, esquecendo, ofende (e se ofende).

No fundo é como na Música. Pois se as notas de que se compõe a Ode à Alegria de Beethoven são exactamente as mesmas com que Jamala escreveu uma canção feita para estimular ódios esquecidos! Saiba o vasto público televisivo – e os povos do nosso mundo – distinguir a Obra da provocação.




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